Na Vertigem do Dia

Subversiva

A poesia
quando chega

                      
não respeita nada.
Nem pai nem mãe.

                              
Quando ela chega
de qualquer de seus abismos
desconhece o Estado e a Sociedade Civil
infringe o Código de Águas

                                             
relincha
como puta           

         
nova
         
em frente ao Palácio da Alvorada. 

E só depois
reconsidera: beija

                    
nos olhos os que ganham mal
                    
embala no colo
                    
os que têm sede de felicidade
                    
e de justiça 

E promete incendiar o país

 

Cantada

Você é mais bonita que uma bola prateada
de papel de cigarro
Você é mais bonita que uma poça dágua
límpida
num lugar escondido
Você é mais bonita que uma zebra
que um filhote de onça
que um Boeing 707 em pleno ar
Você é mais bonita que um jardim florido
em frente ao mar em Ipanema
Você é mais bonita que uma refinaria da Petrobrás
de noite
mais bonita que Ursula Andress
que o Palácio da Alvorada
mais bonita que a alvorada
que o mar azul-safira
da República Dominicana 

Olha,
você é tão bonita quanto o Rio de Janeiro
em maio
e quase tão bonita

quanto a Revolução Cubana

 

A alegria

O sofrimento não tem
nenhum valor
Não acende um halo
em volta de tua cabeça, não
ilumina trecho algum
de tua carne escura
(nem mesmo o que iluminaria
a lembrança ou a ilusão
de uma alegria). 

Sofres tu, sofre
um cachorro ferido, um inseto
que o inseticida envenena.
Será maior a tua dor
que a daquele gato que viste
a espinha quebrada a pau
arrastando-se a berrar pela sarjeta
sem ao menos poder morrer? 

            A justiça é moral, a injustiça
não. A dor
te iguala a ratos e baratas
que também de dentro dos esgotos 

espiam o sol
e no seu corpo nojento
de entre fezes
                       querem estar contentes.

 

Aprendizado

Do mesmo modo que te abriste à alegria
     
abre-te agora ao sofrimento
     
que é fruto dela
     
e seu avesso ardente.

Do mesmo modo
     
que da alegria foste
                                     
ao fundo
     
e te perdeste nela
                                     
e te achaste
                                     
nessa perda
      deixa que a dor se exerça agora
      sem mentiras
      nem desculpas

                            
   e em tua carne vaporize
                            
   toda ilusão 

que a vida só consome
o que a alimenta.

 

Ferreira Gullar

Maranhão/Brasil

1930

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Acerca de pacha creaciones nómadas

Una mujer y otras tantas más, artesana, madre, abuela, licenciada en letras y literatura española, una libertaria feminista en permanente revolución...
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