Mulheres

DELMIRA
 
 A este quarto ela foi chamada pelo homem que
tinha sido seu marido; e querendo tê-la, ele amou-a e
matou-a e se matou.
 Os jornais uruguaios de 1914 publicam a foto do
corpo que jaz tombado junto à cama, Delmira abatida
por dois tiros de revólver, nua como seus poemas, as
meias caídas, toda despida de vermelho:
 -Vamos mais longe na noite, vamos…
 Delmira Agustini escrevia em transe. Tinha cantado
febres do amor sem disfarces pacatos, e tinha sido con-
denada pelos que castigam nas mulheres o que nos ho –
mens aplaudem, porque a castidade é dever feminino, e o
desejo, como a razão, um privilégio masculino. No Uruguai,
as leis caminham na frente das pessoas, que ainda separam
a alma do corpo como se fossem a Bela e a Fera.
 De maneira que perante o cadáver de Delmira se derramam
lágrimas e frases a propósito de tão sensível perda para  as
letras nacionais, mas no fundo os chorosos suspiram com alívio
– a morta morta está, e é melhor assim.
 Mas morta está? Não serão sombra de sua voz   e  eco de  seu
corpo todos os amantes que ardem nas noites do mundo? Não
lhe abrirão um lugarzinho nas noites do mundo para   que  cante
sua boca desatada e dancem seus pés resplandecentes?
 
MULHERES
Eduardo Galeano
1997
ed. LPM
 
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Acerca de pacha creaciones nómadas

Una mujer y otras tantas más, artesana, madre, abuela, licenciada en letras y literatura española, una libertaria feminista en permanente revolución...
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