Alguns Poemas Que Brotaram

Foolices
 
O dia amanhece como um poeta buscando rimas
Como um escafandrista catando pistas no fundo do mar.
Amanhece um pouco além da cortina
Entre a curva da embriaguez
E o comprimido de aspirina.
 
Eclipse
Você surgiu como um fenômeno meteorológico
Como um tornado no inverno
Como um maremoto sem mar…
Você surgiu como um traço de grafite
Num muro sujo da cidade.
Surgiu como um farol apagado
Como um funeral em New Orleans…
Você chegou como um eclipse final
Um último apocalipse
Uma trombeta sem anjos
Um macarrão sem molho
Uma lua sem São Jorge…
Você surgiu na linha da esferográfica
Que, mesmo falhando, eu teimo em usar.
 
I Wish
Eu queria ter um zíper na imaginação
Para só abrir em situações de emergência.
Queria ter um bolso sobressalente
Escondido entre o ventre e o coração.
Nele, eu guardaria coisas inúteis
Como paixões, angústias, e risos.
De vez em quando eu acrescentaria coisas
Ainda mais inúteis, e que ninguém presta atenção
Como nuvens, terremotos, e vendavais.
Eu queria ter um saquinho mágico
Para guardar varinhas e estrelas
Só para dizer que as possuía
Pois nenhuma delas eu usaria!
Eu queria ter um chapéu de toureiro
E…se possível, também um touro
Que eu trancaria no armário.
Eu queria falar muito
E dizer coisas muito feias
Que causassem uma boa impressão.
Queria ter um aparelhinho para surdez
Só para poder escutar melhor as conchas
E espalhar boatos sobre o mar…
Queria ter a lua, o sol e os planetas
Só para poder exigir juros altos sobre eles.
Queria ser avarenta e emprestar dinheiro
Só para cobrar beijos como juros.
Aliás, eu queria mesmo era ser Deus.
Só para desfazer o que foi feito
E inventar coisas novas!              
 
Spell
Eu preciso de agulhas de ouro
Um punhado do sangue de uma virgem
Uma estrela do mar ainda viva
Um pedaço da colcha de alguma rainha
Uma rima perdida de poeta
Uma nota musical nunca tocada
E um novelo de raios da lua.
Preciso também de um bom eclipse
De preferência seguido por uma tempestade.
Ah! Preciso muito de ventos
E também de calmarias.
Após recolher tudo isso
Prego você num meteoro
E rasgo a noite com fios de fumaça.
Invoco o fantasma de Cole Porter
E caímos na noite do Village!
 
Moon’s Lizard
Uma lagartixa acabou de cruzar a sala
Empinada como os seios das virgens
Curiosa como o olhar das mulheres.
Passou como um cometa de carne
Como uma questão matemática
Uma fórmula química.
Não disse a que veio
Desconfiou dos móveis
E se aliou aos cestos.
Me olhou de relance
Piscou os olhos de água
Entendi o recado :
Lagartixas são fêmeas subindo pelas paredes
Querendo alcançar a lua.
 
Márcia Frazão
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Acerca de pacha creaciones nómadas

Una mujer y otras tantas más, artesana, madre, abuela, licenciada en letras y literatura española, una libertaria feminista en permanente revolución...
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