Despertar da Consciência

DIAMANTE INTERNO
 
Toda a Humanidade em sua maioria e no seu mais profundo momento
íntimo busca o despertar da consciência humana. Nos seus momentos de
silêncio e reflexão, por mais alienada que seja, a sociedade
certamente busca o resgate de algo que se perdeu no nosso passado
histórico. Há milhões e milhões de anos, seres humanos buscam
dignidade de vida enfrentando poderes, não só ocultos, mas poderes
culturais e sócio-econômicos. Não quero entrar na discussão do porquê
de tudo isso, porque entraria em filosofias, correntes, divergências,
processos históricos, etc. Quero apenas enfatizar que o ser humano é
um eterno buscador. Ele busca a alegria, a felicidade, a paz,
melhores condições de vida para si e seus semelhantes.
A maneira que a humanidade encontrou para resistir às adversidades da
vida e encontrar as respostas para aquilo que perdeu ou esqueceu é
através da religiosidade, da espiritualidade, da concentração e dos
estudos, na busca do conhecimento contra a ignorância imposta,
subliminarmente forjada pelo Poder. Nesse sentido, aquele que
procura, depara-se com o fenômeno do despertar da consciência.
"Séculos e séculos se passaram e centenas de representações
religiosas ou espirituais foram criadas de acordo com a cultura e
cosmovisão de cada povo, de cada etnia, principalmente de acordo com
os padrões sócio-econômicos da cada um. Imagens, cerimônias,
mitologias, liturgias, símbolos, tambores, chocalhos e atabaques são
conseqüências das criações, não fazem mal a ninguém. São expressões
da arte na religiosidade e na espiritualidade. O que faz mal é a
pretensão de querer ser melhor do que os outros ou ser o dono da
razão, quando existe uma grande diversidade de pensamentos entre a
humanidade", escrevi num texto sobre "intolerância interseccional",
publicado na Agência de Imprensa Indígena (AIPIN), (México, 2005).
Lamentavelmente, algumas correntes religiosas associadas ao grande
capital, no passado, buscaram a hegemonia, desconsiderando, a partir
de seus próprios juízos de valor morais, éticos e filosóficos, a fé
dos povos que subjugavam. Cada vez que povos ou etnias sentiam-se
rejeitados, subjugados, racializados, mais crescia a sua fé e suas
crenças através da liderança do pajé ou ialorixá/ babalorixá, no caso
dos povos indígenas das Américas e da África respectivamente – povos
resistentes que praticavam a conexão do homem com o sagrado. Cada vez
mais fortaleciam suas culturas, tradições e cosmovisão. Assim foi a
história dos povos aborígines, dos povos indígenas, dos povos nativos
dos grandes continentes até hoje. Por isso a resistência indígena é
forte no planeta Terra. Há de se ouvir a voz indígena!
O capital dividiu povos ricos e pobres e fracionou as mentalidades.
Baseados em culturas particulares surgiram centenas de líderes
religiosos e espirituais, como, por exemplo, Maomé, Buda, Jesus
Cristo, Oxalá e Krishna, todos pregando a mesma filosofia através dos
tempos. Todos são atrelados à Poderosa Força Cósmica, ao Criador, ao
Grande Espírito e ao Cristo Cósmico, ao Buda Cósmico ou a Oxalá,
dependendo de cada cultura ou vertente. Tudo isto representa uma
grande riqueza espiritual! É preciso enxergar a unidade na
diversidade.
O xamanismo é um termo que designa a filosofia de estar em viagem
entre mundos mentais, físicos, espirituais, psicológicos. Não é uma
religião. É uma forma de estar na vida e no Planeta. Povos
contestadores das religiões impostas adaptaram-se a esse estar no
mundo, ao longo do tempo. Antigos povos já praticavam essa filosofia.
Na modernidade, seres conscientes adquiriram o sentimento de amor
pela Mãe-Terra e entenderam que era necessária a prática da
conservação do Planeta Terra – daí todo "ser xamânico" ser holístico.
Aqueles que verdadeiramente estiverem dentro desses padrões, são
Visionários. Os que mentem ou comercializam a fé, não permanecerão.
Povos indígenas, afeiçoados à sua cultura, tradições, educação, saúde
e espiritualidades diferenciadas fortaleceram sua cosmovisão diante
do mundo e mostraram sua defesa publicamente, através dos movimentos
organizados, nos planos nacional e internacional. A exemplo disso,
cita-se a defesa da cultura através da legislação específica que foi
criada dentro das Nações Unidas, com o Grupo de Trabalho sobre Povos
Indígenas, que trabalhou vinte anos para produzir a Declaração
Universal dos Povos Indígenas.No Brasil, centenas de organizações
indígenas  buscam o mesmo objetivo: a defesa do conhecimento
ancestral, do patrimônio cultural.
Cito aqui um pequeno texto de uma carta elaborada por um conjunto de
pajés em 2004:
(…) "Tendo em consideração a necessária defesa do direito de nossos
povos diante dos processos de apropriação destes saberes e visões
próprias, herdadas de nossos ancestrais, insiste na afirmação de
princípios fundamentais à dignidade dos povos, pressupondo o respeito
à livre e esclarecida decisão quanto ao acesso e uso do acervo de
conhecimentos que envolvem a sensível e frágil Teia da Vida, que em
nossas culturas ainda se constitui no verdadeiro patrimônio da
humanidade, não podendo estar disponível para os usos e acessos
previstos nas discussões entre governos (OMC, OMPI) e representantes
das empresas no amplo processo de negociação das partes acerca dos
recursos genéticos, conhecimentos tradicionais e patrimônios
culturais dos povos indígenas". O patrimônio dos povos indígenas não
está disponível para usos e acessos. .
O povo brasileiro é um povo muito místico. É intuitivo, importa-se
com os sonhos. É religioso. Traz no seu interior a herança dos povos
indígenas, povos negros, povos amarelos, povos brancos – como se vê
na nossa diversidade de religiões e espiritualidades.
O bonito é o respeito entre crenças, fés e doutrinas. O xamanismo e a
pajelança são vertentes diferentes, por isso xamã é xamã e pajé é
pajé, assim como o padre é padre e o pastor ou pai ou mãe de santo
são eles mesmos. Cada um tem seu tempo de trabalho e formação
próprios e específicos. O intercâmbio é maravilhoso e o ecumenismo
deveria ser mais ativo no Brasil!
Nas tradições indígenas, o pajé é a expressão máxima representada, em
forma humana, da espiritualidade e da cura. Seu dom é nato, porque é
passado de geração para a geração. Nenhum pajé faz curso para ser
pajé, ele adquire conhecimentos através da ancestralidade tribal, e
desde a sua infância, ao ver seus avós e bisavós praticarem curas e
rezas pelo bem da comunidade. O pajé é um ser totalmente desprovido
de valores materiais. É um visionário nato. Seu maior bem é o dom
ofertado com honras pelo Criador. Ele está sempre em conexão com o
mundo atemporal, com atitudes concentradas e observadoras. O pajé é
um sábio e está sempre disponível para atender o seu povo, doando sua
cura de forma "solidária". Não há uma relação capitalista entre pajé
e doente, entre o pajé e a comunidade. O pajé e sua pajelança
representam, na realidade, a maior expressão nata dos conhecimentos
tradicionais, a propriedade intelectual indígena, mesmo que ele não
tenha conhecimentos científicos para compreender a defesa dos seus
direitos indígenas. Por outro lado, cada pajé pertence a uma etnia
específica indígena provida de valores, costumes, crenças
específicas. Um pajé de uma certa etnia pode agir de forma distinta
de um pajé de outra etnia. O pajé pode ter, se quiser, uma relação
capitalista com indivíduos urbanos, pois o seu ofício equivale ao de
um médico entre nós.
Nas tradições africanas, é o ialorixá ou babalorixá que representa
estes conhecimentos. É ele quem mantém a resistência viva. O pajé, o
xamã, os ialorixás, os babalorixás, os padres e os sacerdotes
despertam a nossa consciência, nos fazem lembrar que somos todos
iguais.
O que nós humanos estamos precisando lembrar, no fundo de nossos
corações, no fundo de nossos neurônios adormecidos e no fundo de
nossa alma primeira, é deste bem precioso, um diamante que perdemos
ou esquecemos, um passaporte ético para a verdadeira Nova Era. Esse é
o esforço que temos que fazer para resgatar essa memória ancestral
perdida através de milhões e milhões de anos – somente assim o
sofrimento e as diferenças não existirão mais entre nós, seres
terráqueos.
Para isso, é necessário que os espíritos da Inteligência, da
Humildade, da Fraternidade, da Fé, do Amor Universal, da Justiça, da
Força e da Paz – atrelados à grande Mente Ancestral (O grande
espírito, o Criador) que está dentro de nós – sejam trabalhados em
todos os corações através da observação, da concentração, do estudo e
da aplicação desses bens divinos à Humanidade.
Esses espíritos em cada cultura podem ser representados de formas
diferentes como, por exemplo: na forma entes da natureza (aves,
peixes, mamíferos); terra, água, ar, fogo; pontos cardeais (norte,
sul, leste, oeste); planetas e manifestações da natureza, como a lua,
o sol, as estrelas, o trovão, os raios, as tempestades, os maremotos,
os rios, as cascatas, as cachoeiras, os mares, as chuvas; os
mensageiros de Deus, os anjos, os arcanjos e os santos. Enfim, uma
gama elementos da própria natureza. O importante é a essência, não a
forma! Respeitemos a cultura de cada povo e suas representações
simbólicas, porque tudo é muito lindo e abençoado é aquele que
compreende essa riqueza de expressão e sentimentos.
(*) Eliane Potiguara é remanescente Potyguara, escritora/professora indígena.
Coordena Grumin/Rede de Comunicação Indígena. 
Autora do livro METADE CARA, METADE MÁSCARA.
S. Paulo, Global Editora, Série Visões Indígenas(Daniel Munduruku)
 
 
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Acerca de pacha creaciones nómadas

Una mujer y otras tantas más, artesana, madre, abuela, licenciada en letras y literatura española, una libertaria feminista en permanente revolución...
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